18/06/2018

12. rehabilitation


Quando abri os olhos, estava em uma cama de hospital, e a luz do sol entrava reluzente pela
janela. Tentei mudar de posição, mas tudo doía.
— Merda — murmurei.
— Você está bem? — indagou uma voz.
Virei a cabeça e vi Nicholas sentado em uma cadeira com algumas brochuras na mão e um
grande curativo na testa. Ele usava um casaco com capuz e calça de moletom, e em seu rosto
não havia o sorriso de sempre.
— Não. Parece que fui atropelado por um caminhão.
— Ou talvez você tenha batido com o carro em um prédio, seu idiota — murmurou
alguém.
Virei o rosto para o outro lado e vi Dallas. Ela estava de braços cruzados, e seu olhar era
duro. Ao seu lado, um homem de gravata-borboleta segurava um bloco de anotações, e Jacob estava sentado em um canto.
O que aconteceu? Por que Jacob estava com Nicholas?
— Você não lembra? — perguntou Nicholas, parecendo um pouco ríspido comigo.
— Eu não me lembro do quê?
— De ter batido com o carro em um maldito prédio! — exclamou Dallas, com a voz
trêmula.
O homem ao lado dela pousou a mão em seu ombro, tentando confortá-la. Fechei os olhos,
tentando me lembrar do que aconteceu, mas tudo parecia um borrão.
— Joseph... — Nicholas esfregou os olhos. — Nós encontramos você passando mal na varanda de uma casa. Tentamos levá-lo ao hospital, mas você surtou e tentou pegar o
volante, e o carro bateu em um prédio.
— O quê? — minha garganta ficou seca. — Você está bem?
Ele assentiu, mas Dallas discordou.
— Mostre a ele a lateral do seu rosto, Nicholas.
— Pare, Dallas.
— Não. Ele precisa ver. Precisa ver o que fez.
Nicholas abaixou a cabeça e encarou os próprios sapatos.
— Deixa pra lá, Dallas.
— Mostre — pedi.
Ele puxou o capuz e mostrou o lado esquerdo do rosto, que estava repleto de hematomas
roxos, azulados e pretos.
— Puta merda! Eu fiz isso?
— Está tudo bem — disse Nicholas.
— Não está tudo bem — retrucou Dallas.
Ela tinha razão, não estava tudo bem.
— Nicholas, eu sinto muito. Eu não queria...
— Isso nem é o pior de tudo! Você quase matou a minha irmã! — gritou ela.
Senti um aperto no peito.
Demi.
Meu maior vício.
— O que aconteceu com Demi? Onde ela está? — murmurei, tentando me sentar, mas foi
impossível com a dor que senti nas costas.
— Joseph, relaxe. Os médicos estão cuidando dela. Agora precisamos falar de você. Nós
trouxemos uma pessoa aqui para te ajudar — disse Nicholas.
— Me ajudar com o quê? Não preciso da ajuda de ninguém. O que aconteceu com Demi?
Senti as paredes do quarto me sufocando. O que eu estava fazendo aqui? Por que todo
mundo olhava para mim com tanto desprezo? Por que eles não me contavam o que tinha
acontecido com Demi?
— Estamos todos aqui porque amamos você... — começou Nicholas.
A ficha caiu. Entendi porque o homem de gravata-borboleta estava ali no quarto. Minha
atenção se voltou para as brochuras que Nicholas tinha nas mãos, e fechei os olhos com força.
Eles queriam me colocar na reabilitação. Em um quarto de hospital.
— Porque me amam? — sussurrei. À medida que eu me dava conta do que estava
acontecendo, minha voz se enchia de amargura. — Quanta bobagem.
— Qual é, Joseph, isso não é justo — retrucou Nicholas.
Ao virar o rosto na direção dele, deparei-me com seus olhos tristes e seu semblante repleto de medo e preocupação.
— Não me venha com “Qual é, Joseph”. E aí? Vão me mandar para a reabilitação? Vocês
acham que eu estou tão fodido que precisam se reunir em um quarto de hospital e me
encurralar? Acham que sou perigoso? Precisam trazer pessoas que não dão a mínima para
mim? Cometi um erro ontem. — fiz um gesto na direção de Jacob. — É muita hipocrisia
trazer até aqui o idiota que passou a semana toda chapado comigo, não acha? Jacob, tenho
quase certeza de que você está drogado.
Jacob franziu o cenho.
— Qual é, Joseph...
— E, Dallas, eu nem sei por que você está aqui. Você não me suporta.
— Eu não odeio você, Joseph. — ela engoliu em seco. — Qual é, isso foi grosseiro.
— Eu realmente gostaria muito que vocês parassem de dizer “qual é”, como se fossem
melhores que eu. Vocês não são melhores que eu. — ri de maneira sarcástica e tentei me
sentar. Bem lá no fundo, eu estava na defensiva, pois sabia que eles tinham razão. — Tudo
isso é muito engraçado. Estamos aqui falando que eu só sei fazer merda, mas o quarto está
cheio de gente que é tão ou mais fodido que eu. Nicholas não pode dar um pio sobre ser músico em vez de advogado perto do merda do pai. Jacob é viciado em pornografia estranha, com garfos e tal. Dallas quebra um prato e compra cinquenta para substituí-lo, só para garantir, caso a porra do prato novo quebre também. Ninguém acha que isso é maluquice?
— Acho que todos nós só queremos que você fique bem, Joseph — disse Nicholas. Eu só
queria saber se o coração dele batia tão frenético quanto o meu. — Eu imagino o que você
passou morando com a nossa mãe. Deve ser difícil não usar drogas morando com ela.
— Você deve estar se sentindo muito bem, Nicholas — falei, esfregando o nariz. — Porque
você é o Nicholas, o menino de ouro. Aquele que tem o pai rico. O que tem futuro. O que tem
passagem garantida para uma das melhores faculdades do país, que vai se tornar um grande
advogado. E eu sou só o irmão fodido, com uma mãe drogada e um pai traficante. Bem,
parabéns, Nicholas. Você é o vencedor. É o melhor filho que nossa mãe poderia ter. O filho que conquistou algo, e eu sou só um merda que provavelmente vai morrer antes dos vinte e cinco anos.
Nicholas respirou fundo.
— Por que você sempre diz essas baboseiras? — ele começou a andar pelo quarto, irritado.
— Qual é o seu problema, Joseph? Acorda. Acorda. Queremos te ajudar, e você está gritando
com a gente como se fôssemos seus inimigos, quando, na realidade, seu inimigo é você
mesmo. Você está se matando. Porra, você está se matando e não se importa com isso —gritou Nicholas.
Ele nunca levantava a voz, nunca.
Fiz menção de dizer algo, mas o olhar de Nicholas me deteve. Por um segundo, pensei ter visto ódio nele.
Meu irmão passou as mãos pelo rosto algumas vezes, tentando se acalmar. Fungou para
conter as lágrimas e atirou os panfletos em minha direção. Quando eles caíram no meu colo,
li as palavras várias vezes.

Clínica de Saúde e Reabilitação St. Michaels
Waterloo, Iowa

— Então vocês acham que eu preciso de tratamento? — perguntei. — Eu estou bem.
— Você bateu com o carro em um prédio — disse Dallas pela centésima vez.
— Foi um acidente, Dallas! Você nunca cometeu um erro?
— Sim, Joseph, mas não um erro que quase matou o meu namorado e a minha irmã. Você
está no fundo do poço e, se não se ajudar, vai machucar mais pessoas.
Onde está  Demi?
— Olha, estamos perdendo o foco. Joseph, queremos ajudar. Meu pai vai pagar seu
tratamento em Iowa. É uma das melhores instituições do país. Acho que lá você realmente
vai encontrar ajuda — explicou Nicholas.
Fiz menção novamente de dizer algo, mas Nicholas me silenciou. Por um segundo, pensei
ter visto amor em seu olhar.
Esperança.
Súplica.
— Posso ficar sozinho com meu irmão? — murmurei, fechando os olhos.
Todos os outros saíram do quarto. A porta finalmente se fechou.
— Sinto muito, Nicholas — eu disse, brincando com os dedos. — Não tive a intenção de causar o acidente. Eu não queria que isso tivesse acontecido. Mas depois que Demi disse que iria fazer um aborto...
— O quê? — interrompeu Nicholas.
— Você não sabia? Demi estava grávida. Mas ela fez um aborto há algumas semanas. A
mãe providenciou tudo, e isso fodeu com a minha vida, Nicholas. Sei que fiquei fora de mim nos últimos dias, mas estou confuso.
— Joseph... — Nicholas se aproximou e puxou uma cadeira para se sentar ao lado da cama. — Ela não fez o aborto.
— O quê? — meu coração começou a acelerar, e meus dedos agarraram a estrutura de
metal da cama. — Mas a mãe dela disse...
— A mãe de Demi a expulsou de casa quando ela resolveu que iria ficar com o bebê. Ela
queria te contar, mas você desapareceu.
Eu me sentei, cheio de dor, mas também cheio de esperança.
— Ela não fez o aborto?
Nicholas baixou os olhos, encarando as próprias mãos, que estavam entrelaçadas.
— Não.
— Então... — respirei fundo, tentando controlar as emoções que me invadiam. — Vou ser
pai?
— Joseph... — começou Nicholas, balançando a cabeça. Sua boca se abriu, mas ele não disse
nada por alguns instantes. Massageou as têmporas. — Demi não estava usando cinto de
segurança quando sofremos o acidente. Ela tentou te segurar quando você foi pegar o
volante. No momento da batida, o vidro de trás quebrou, e ela foi lançada para fora do carro.
— Não. — balancei a cabeça.
— Ela está bem, mas...
— Não, Nicholas.
— Joseph, ela perdeu o bebê.
Tentei conter as lágrimas.
— Não diga isso, Nicholas. Não diga isso. — eu o empurrei. — Não diga isso.
— Sinto muito, Joseph.
Levei as mãos ao rosto e comecei a chorar, histérico. Eu sou o culpado. Eu causei o acidente,
sou o culpado. É tudo culpa minha. Nicholas me abraçava enquanto eu desabava, incapaz de falar, incapaz de fazer a dor parar, incapaz de respirar. Inspirar era doloroso, expirar, uma tortura.

Nicolas eu te amo, abre mesmo os olhos do Joseph.
Demi não abortou mas perdeu o bebe no acidente :(
Joseph irá se sentir muito culpado e tadinha da Demi irá sofrer.
o que acharam do capítulo? eu espero muito que vocês tenham gostado amores.
eu estou muito feliz pelo os comentários de vocês, muito obrigada.
volto em breve, respostas do capítulo anterior aqui.