26/07/2018

17. reencounter


Meu olhar estava focado em Demi enquanto ela andava pelo restaurante, atendendo os
clientes. Eu me sentei em um canto nos fundos do salão, um lugar onde dificilmente ela
conseguiria me ver. Eu não deveria estar aqui. Minha mente conhecia todos os motivos pelos
quais eu não deveria ter vindo ao restaurante, mas meu coração parecia atraído por Demi.
Ela ainda tinha o mesmo sorriso. Isso me deixou feliz e triste ao mesmo tempo. Quantos
sorrisos eu perdi? Para quem ela sorria agora?
— Aqui está sua omelete — disse a garçonete, colocando o prato na minha frente. Seu
rosto estava um pouco pálido, e o suor escorria por sua testa. Ela deu um sorriso forçado. —
Deseja mais alguma coisa?
— Suco de laranja seria ótimo.
Ela assentiu e saiu.
Peguei o saleiro e comecei a colocar sal na omelete. Uma risada alta soou ao longe, e eu
respirei fundo. A risada de Demi. Ainda era a mesma. Fechei os olhos e senti um aperto no
peito. As recordações me atingiram como um furacão, e minha mente foi invadida por todas
as vezes que me deitei ao seu lado, ouvindo sua risada atravessar minha alma.
— Se você queria um prato de sal com omelete, e não o contrário, poderia ter pedido —
disse uma voz, trazendo meus pensamentos de volta. Olhei para a comida. Havia me
descuidado e passado os últimos cinco minutos colocando sal nela.
— Desculpe — murmurei, pousando o saleiro na mesa.
— Não precisa se desculpar. Todos temos nossas preferências. Bem, a equipe de garçons
está bastante atarefada, Jenny foi para casa porque está com gripe, e fui designada para trazer seu suco de laranja.
Ergui os olhos para a garota. Ela tinha lábios carnudos, com batom rosa, e seus olhos castanhos eram mais do que familiares para mim, eram a única coisa que aquela cidade tinha de extraordinário. Aqueles olhos podiam sorrir por conta própria. O cabelo loiro agora era liso, e a franja caía sobre as sobrancelhas.
Nós permanecemos em silêncio.
Ela ficou me encarando.
Eu não desviei o olhar.
Demi.
Meu maior vício.
Ela estava linda, mas isso não me surpreendia. Não havia um dia em que eu não me
lembrasse do quanto ela era bonita. Mesmo quando eu estava tão mal que não conseguia nem abrir os olhos, me lembrava da beleza de suas palavras suaves me implorando para voltar para ela, para continuar a respirar.
— Joseph — sussurrou Demi, colocando o copo de suco na mesa.
Eu me levantei da cadeira, e ela deu um passo na minha direção. No começo, achei que iria
me abraçar, me perdoar por eu ser desse jeito e por nunca ter retornado suas ligações. Mas ela não iria me abraçar. A palma de sua mão estava aberta, e soube naquele momento que ela iria me dar um tapa. Com força. Sempre que Demi fazia algo, era com força total. Ela nunca fazia nada meia-boca.
Seu braço se ergueu e veio na minha direção rapidamente. Eu estava pronto para o
merecido tapa na cara. Fechei os olhos, mas não senti seu toque. Meu Deus, como eu queria
sentir seu toque. Abri os olhos e encontrei a mão trêmula pairando no ar a centímetros do
meu rosto. Nossos olhos se encontraram, e eu vi lágrimas brotando dos seus. Vi também sua
mente confusa, o coração ferido.
— Oi, Demi.
Ela se retraiu e fechou os olhos. Sua mão continuou pairando no ar, e eu ergui a minha
para levar seus dedos ao meu rosto. Um pequeno gemido de dor escapou de seus lábios
quando ela tocou minha pele. Eu a puxei para perto e a abracei. E parecia que tudo tinha
acontecido ontem. Sua pele estava fria como sempre, e meu corpo aqueceu o dela. Demi
passou os braços em torno do meu pescoço, abraçando-me como se me perdoasse por todas as ligações não atendidas e pelo meu silêncio.
Seus dedos me agarraram, quase se enterrando em minha pele, como se eu fosse uma
miragem prestes a desaparecer. Eu não a culpava e eu já tinha feito isso antes.
Cheirei seu cabelo.
Pêssegos.
Cara, eu odiava pêssegos até aquele dia.
Ela tinha o perfume do fim do verão. Suave, doce, perfeito.
Porra, meu maior vício.
— Senti sua falta... — disse ela no meu ouvido.
— Eu sei.
— Você foi embora...
— Eu sei.
— Como você se atreve...
— Eu sei.
O corpo de Demi se retesou, e ela se afastou de mim. A tristeza em seus olhos tinha
desaparecido. Só a raiva permaneceu.
Aquilo parecia certo.
— Você sabe? — sussurrou ela.
Demi estava de pé, mas ainda assim parecia tão pequena. De braços cruzados, ela mordia
o lábio inferior. Surgiram pequenas rugas nos cantos de seus olhos, e ficou claro para mim
que ela não era a mesma garota que eu deixei para trás há alguns anos. Era uma mulher
adulta agora, e uma chama ardia bem no fundo de sua alma.
— Eu te liguei — continuou ela.
— Eu sei.
Sua testa franziu.
— Não, você não sabe. Eu te liguei, Joseph. Deixei mais de quinhentas mensagens.
Mil e noventa mensagens.
Não quis corrigi-la.
— Você desapareceu. Você me deixou. Você nos deixou. Deixou Nicholas. Deixou todos nós.
Eu entendo que precisava de um tempo, mas você simplesmente foi embora. Depois do que
passamos, do que aconteceu, você me deixou sozinha para lidar com tudo aquilo.
— Eu fui me tratar. Estava tentando lidar com os problemas da minha mãe, com o que
aconteceu com você, e sim, eu estava mal, mas só precisava de tempo.
— Eu te dei um tempo, e mesmo assim você sumiu.
— Você me ligou todos os dias, Demi. Isso não é dar um tempo.
— Nicholas e eu salvamos sua vida e achamos que você iria voltar. Eu te liguei todos os dias
para que você soubesse que eu estava aqui, te esperando. Achei que iria voltar para mim. Para nós.
— Você não pode salvar a vida das pessoas e não pode esperar que elas voltem, Demi.
Você deveria saber disso depois do que aconteceu com...
Eu me interrompi, mas não podia voltar atrás em minhas palavras. Demi sabia o que eu
iria dizer. Você deveria saber disso depois do que aconteceu com seu pai.
— Isso foi cruel.
— Eu não disse nada.
— Para alguém que não disse nada, você com certeza foi bastante claro. — a voz dela
falhou. — Mais de quinhentas mensagens, e nenhuma resposta.
Mil e noventa mensagens.
Não a corrigi.
— Eu não tinha nada a dizer a você — menti.
Eu estava construindo uma muralha em torno de mim, sabia que precisava fazer isso ao
voltar para True Falls. Precisava manter a cabeça no lugar e as emoções sob controle para não entrar na vida de Demi novamente. Da última vez que fiz isso, eu a arruinei. Então, eu tinha que ser frio e cruel.
Porque ela merecia mais do que ficar esperando por um telefonema de alguém como eu.
— Nada? — Demi recuou, espantada. — Nem uma palavra? Nem mesmo um oi?
— Sempre fui melhor em despedidas.
— Uau...
Ela respirou fundo.
Tudo que eu sentia por ela estava voltando, mais forte do que nunca. Senti raiva de mim
mesmo por não ter retornado as ligações, estava triste, feliz, confuso, apaixonado. Eu sentia
todas as emoções que Demi sempre despertava em mim.
Minha cabeça estava a segundos de explodir.
— Sabe de uma coisa? — ela pigarreou e me deu um sorriso tenso. — Não vamos fazer
isso.
— Fazer o quê?
— Brigar. Discutir. Porque, se fizermos isso, significa que temos algum tipo de
relacionamento, o que não é verdade. Você se tornou um estranho no momento em que
desapareceu nos campos de milho de Iowa.
Fiz menção de dizer algo, mas Demi se virou e saiu para atender outra mesa. Ela tinha
um falso sorriso no rosto ao falar com os clientes e batia o pé sem parar no chão
quadriculado.
Seus olhos me encaravam.
— Acho que vou querer os ovos mais moles e... — dizia um cliente, mas se deteve quando
Demi se voltou como um furacão para mim. — Bacon...
— Por acaso Nicholas sabe que você está aqui? Ou você também vai atacá-lo de surpresa no
trabalho?
Ela levou as mãos aos quadris e ergueu uma sobrancelha.
Franzi o cenho.
— Sim. É por causa dele que estou aqui. Para o casamento.
— O quê? — perguntou Demi, confusa.
— O casamento... você sabe, meu irmão vai se casar com a sua irmã.
— Mas... — ela fez uma pausa, ficando irritada. — O casamento é só daqui a um mês. Você
voltou um mês antes para ajudar nos preparativos?
— Nicholas me disse que era este fim de semana.
— Bem, isso com certeza seria novidade para mim. Mas, com tudo que está acontecendo,
eu não ficaria chocada.
— O que você quer dizer? O que está acontecendo?
Demi abriu a boca, mas as palavras não saíram. Tentou novamente, mordendo o lábio
inferior.
— Você está usando drogas, Joseph?
— O quê? — perguntei, na defensiva. — Como assim?
— Você sabe o que eu quero dizer. Eu só... — ela começou a tremer, nervosa. — Preciso
saber se você não está chapado. Se está usando alguma coisa.
— Isso não é da sua conta. Se falássemos sobre esse assunto, isso significaria que temos
algum tipo de relacionamento, e, como você disse, nós...
— Joe — sussurrou ela.
O apelido me fez repensar minha indignação e minha atitude defensiva.
Os olhos dela.
Os lábios dela.
Demi.
Meu maior vício.
— Diga — sussurrei de volta.
— Você está usando alguma coisa?
— Não.
— Nem maconha?
— Só maconha — respondi. Um suspiro escapou dos lábios dela. — Qual é, Demi, dá um
tempo. Maconha é permitida em alguns estados.
— Não em Iowa.
Ela começava a parecer preocupada, o que significava que ainda se importava um pouco
comigo, que ainda restava uma esperança. Por que eu estava pensando em ter esperança? Eu
precisava deixar Demi do lado de fora da muralha que não pretendia derrubá-la tão cedo. Se o casamento não fosse naquele fim de semana, eu pegaria o próximo trem para dar o fora
dali.
— Só maconha? — perguntou ela.
— Só maconha.
— Jura?
— Juro.
Ela deu um passo para trás antes de dar dois para a frente e estendeu o dedo mindinho em
minha direção.
— Mesmo?
Olhei para o seu dedo mindinho por um tempo, lembrando-me de todas as promessas que
fazíamos dessa forma quando éramos jovens.
Meu dedo mindinho envolveu o dela. Tudo que eu sentia era aquele toque.
— Mesmo.
Quando soltamos os dedos, ela hesitou antes de estender as mãos na minha direção, e, sem
pensar, eu a puxei para junto de mim. Seus braços me envolveram. Ela me abraçou tão forte
que minha intuição logo me disse que havia alguma coisa errada.
— Demi, o que houve?
Ela me abraçou ainda mais forte, e eu me recusei a soltá-la. Seus lábios moveram-se
próximos ao meu ouvido, sua respiração quente dançou em minha pele.
— Nada. Não foi nada.
Quando nos afastamos, ela uniu as mãos como se fizesse uma oração e pressionou-as
contra os lábios.
— Joe..
Passei os dedos pelo cabelo e assenti.
— Demi...
— Bem-vindo de volta ao lar.
— Aqui não é meu lar. Logo eu irei embora de novo.
Demi deu de ombros.
— Lar é sempre lar, mesmo quando você não quer que seja... E, Joseph? — disse ela,
balançando-se para a frente e para trás sobre os calcanhares.
— Sim?
Ela não disse mais nada, mas ouvi sua voz em alto e bom som.
Também senti sua falta, Demi.

amores, me desculpem pela a demora mas a minha vida esta bem corrida agora.
finalmente o reencontro dos dois e o que será que vai acontecer agora?
será que o Joseph irá voltar para Iowa ou ficar na cidade?
eu estou muito triste pela o que aconteceu com a Demi, we love you Demi <3
o importante agora é a sua recuperação e sua saúde sempre em primeiro lugar.
o que acharam do capítulo? eu espero muito que vocês tenham gostado amores.
deixem suas opiniões também aqui sobre o caso da Demi.
resposta do capítulo anterior aqui.

16/07/2018

16. just one day at a time


Todo dia eu pegava carona para o trabalho com a minha vizinha, uma garçonete de setenta
anos chamada Lori. Nós duas trabalhávamos no turno da manhã no Hungry Harry’s Diner e
odiávamos cada segundo. Lori trabalhava lá havia vinte e cinco anos e sempre me dizia que
seu plano B era se casar com um Chris podia ser o Evans, o Hemsworth ou o Pratt, ela não
era exigente. Todos os dias, a caminho do Hungry Harry’s, ela reclamava que estava cinco
minutos adiantada e dizia que o pior lugar do mundo para se chegar cedo era o trabalho. Eu
não a culpava.
Fazia cinco anos que eu trabalhava lá. A pior coisa era chegar todos os dias cheirando a
perfume de rosas e xampu de pêssego e sair com cheiro de hambúrguer e batatas fritas. A
única coisa que me mantinha no emprego era saber que cada hora que eu passava ali me
deixava mais perto do sonho de abrir um piano-bar.
— Você vai conseguir, meu bem — falou Lori durante uma pausa no trabalho. — Você
ainda é jovem, cheia de disposição. Tem tempo de sobra para transformar esse sonho em
realidade. O segredo é não ouvir o que as pessoas dizem. Elas sempre gostam de se meter na
vida dos outros. Mantenha a cabeça erguida e não ouça essas baboseiras.
— Bom conselho.
Sorri. Eu sabia que Lori só estava falando aquilo para que não tivéssemos que voltar ao
trabalho um segundo antes do que deveríamos.
— Sabe o que minha mãe me dizia quando eu era criança e sofria bullying?
— O quê?
— Um dia de cada vez. É só isso de que precisamos para conseguir qualquer coisa. Não pense muito no futuro nem no passado. Concentre-se no agora. Aqui e agora. Essa é a melhor maneira de viver a vida. No momento. Um dia de cada vez.
Um dia de cada vez. Um dia de cada vez.
Repeti essas palavras em minha cabeça quando um cliente grosseiro gritou comigo porque
seus ovos mexidos estavam crus, quando um bebê jogou um prato de comida no chão e os
pais me culparam e, ainda, quando um cara bêbado vomitou em meus sapatos.
Eu odiava meu trabalho, mas era bom conhecer os prós e contras desse tipo de lugar.
Quando eu abrisse o piano-bar, seria parte das minhas atribuições cuidar do bom
funcionamento da cozinha.
Apenas um dia de cada vez.
— Você sempre mexe os quadris assim quando anota os pedidos? — zombou uma voz.
Sorri ao perceber a quem ela pertencia.
— Só quando sei que vou ganhar boas gorjetas.
Eu me virei e vi Dan de pé, com as mãos cheias de papéis. Ele estava lindo de calça azul-
marinho e camisa de botão azul-clara com as mangas dobradas. Seu sorriso era largo e reluzente como sempre, e era dirigido a mim. Peguei o bloco de papel e a caneta no avental e fui até ele.
— O que veio fazer aqui tão cedo?
— Estava dando uma olhada naquele lugar que tínhamos pensado em comprar.
— É?
— É. Eu amei. Adorei mesmo, mas tem cupins. Você tem um minuto para conversarmos
sobre isso? Trouxe mais algumas plantas de outros lugares que poderíamos visitar.
Fiz uma careta, olhando ao redor.
— Acho que meu chefe me mandaria embora se eu parasse de trabalhar para conversar
sobre possíveis lugares para um piano-bar.
Conheci meu amigo Dan há alguns anos em um piano-bar. Atualmente, ele trabalhava
para uma das melhores imobiliárias do estado, e, quando contei a ele minha ideia, ele se
animou para me ajudar a procurar o lugar ideal, mesmo que eu tenha dito que levaria um
bom tempo até que meus planos se tornassem realidade.
— Ah, não, claro. Eu estava por perto e pensei em parar para comer batatas fritas e tomar
um café. Estou a caminho do trabalho mesmo.
Abri um grande sorriso, e ele também.
— Podemos dar uma olhada nisso amanhã à noite, se você estiver livre.
— Sim, sim! — exclamou Dan, a animação tomando conta dele. — A gente conversa sobre
isso na sua casa. Podemos pedir comida chinesa, e eu posso levar um vinho. Posso até
preparar algo para você, uma carne ou algo assim... — ele diminuiu o tom de voz, mas sua
alegria só aumentava. Passou as mãos pelo cabelo e deu de ombros. — Você que sabe, tanto faz.
— Por mim, está ótimo. Só tem um pequeno porém. Minha casa ainda está em obras. E,
com a chuva, houve alguns vazamentos no telhado.
— Se você quiser ficar lá em casa até terminar a obra, a oferta ainda está de pé. Sei que
essas coisas podem ser uma dor de cabeça.
— Obrigada, mas acho que vou continuar perdida naquela confusão mesmo.
— Está bem. Bom, é melhor eu ir para o trabalho, mas encontro você amanhã para
falarmos sobre isso. — ele agitou os papéis no ar e piscou para mim.
— Mas você não disse que iria tomar um café e comer batatas fritas?
— Ah, sim, mas me dei conta de que... — Dan pareceu um pouco nervoso, e eu não pude
deixar de sorrir novamente. — De que eu tinha que chegar um pouco mais cedo no trabalho
para resolver umas coisas para o meu chefe.
— Então está combinado amanhã. Deixa o álcool comigo, você leva as plantas.
Com isso, ele foi embora. Deixei escapar um suspiro. Havia uns três anos que Dan era
apaixonado por mim, praticamente desde que nos conhecemos, mas nunca senti nada
parecido por ele. Dan era importante na minha vida, e eu esperava que ele lidasse bem com o fato de sermos apenas amigos.
— Ele tem casa própria, um bom emprego, diz que quer comer batatas fritas só para te ver,
tem um sorrisinho apaixonado e se oferece para cozinhar. Mas você não consegue nem
aceitar o convite de se mudar para a casa dele durante a obra? — perguntou Lori, carregando
uma bandeja com ovos mexidos, batatas e salsichas.
Eu ri.
— Minha casa é ótima. Passei todos esses anos economizando para comprar a casa que eu
sempre quis, e agora que a tenho, não vou sair de lá. Ela só precisa de alguns reparos, só isso.
— Meu bem, sua casa precisa de um pouco mais do que alguns reparos. — Lori sorriu,
colocando os pratos de comida em cima da mesa cinco antes de se virar para mim com a mão no quadril e um sorriso insolente nos lábios. — Se Dan me oferecesse uma cama para dormir, eu moraria com ele e o faria me mostrar suas plantas em cada centímetro do meu corpo e em cada canto da casa.
— Lori! — eu a repreendi, minhas bochechas queimando.
— Só estou falando. Você tem três empregos para pagar por uma casa que precisa de
reformas, e tudo isso só para provar que pode ser uma mulher independente. Você poderia
reformar a casa e ir morar com Dan, sabia?
— A casa não precisa de tantos reparos assim — argumentei.
— Demi — resmungou Lori, levando as mãos ao rosto. — A última vez que fui até sua casa
para beber com você, usei o banheiro e não fechei a porta. Sabe por quê? Porque não tinha
porta.
Eu ri.
— Ok. Entendi. Certo, ela precisa de muitos reparos. Mas eu gosto do desafio.
— Hum, você deve ser muito boa de cama para ele ficar rastejando desse jeito.
— O quê? Não, nós nunca dormimos juntos.
— É mesmo? Quer dizer que ele está caidinho por você, e vocês dois nunca chegaram aos
finalmentes?
— Nunca.
— Mas... aquele sorriso!
Eu ri.
— Eu sei, mas ele é só um amigo. E tenho uma regra para meus relacionamentos: não
namorar nenhum dos meus amigos. Nunca.
Eu já havia seguido por esse caminho antes e não tinha a menor intenção de percorrê-lo
novamente. Ainda pensava em Joseph e lamentava a amizade que tinha perdido.
Teria sido melhor se nunca tivéssemos nos apaixonado.
— Sabe, Charles e eu éramos grandes amigos quando começamos a namorar. Ele foi o
amor da minha vida, nunca encontrei ninguém igual. Ele me fazia rir antes mesmo que eu
soubesse o que era o amor. Algumas das melhores coisas da vida vêm das amizades mais
fortes — comentou Lori. Com a cabeça baixa, ela segurou o relicário que tinha junto ao
pescoço com uma foto do seu casamento. — Puxa, sinto tanta falta dele...
Ela quase nunca falava de Charles, seu falecido marido, mas, sempre que o fazia, havia um
brilho em seus olhos. Era como se voltasse ao dia em que se apaixonou por ele.
Nosso chefe nos mandou parar de conversar e voltar ao trabalho, e foi o que nós fizemos.
Sempre ficávamos muito ocupadas no período da manhã, servindo mais pessoas do que
parecia humanamente possível. Quanto mais ocupada eu estivesse, menos tempo teria para
pensar na vida.
Segurei o bule de café com firmeza e comecei a passar pelas mesas que eu estava
atendendo.
— Gostaria de mais café? — perguntei a uma mulher sentada perto da janela.
— Aceito. Obrigada.
Sorri para ela. Quando ergui a vista e olhei pela janela, meu coração quase parou. Meus
dedos tocaram o vidro, tentando alcançar a figura do outro lado da rua. Pisquei, e o que
pensei ter visto desapareceu como em um passe de mágica. Um arrepio percorreu meu corpo.
Lori olhou na minha direção.
— Você está bem, Demi? Parece que viu um...
— Fantasma? — perguntei, terminando a frase.
— Exatamente. — Ela se aproximou e olhou pela janela. — O que foi?
Um fantasma.
— Nada. Não foi nada — respondi, e me dirigi à próxima mesa com meu bule de café.
Era minha imaginação, só isso.
Nada mais, nada menos.

o Dan é super amigo da Demi porém apaixonado por ela.
quem será que a Demi viu pela a janela? algum palpite?
estou muito feliz pelo os comentários de vocês, muito obrigada.
o que acharam do capítulo? eu espero muito que vocês tenham gostado amores.
o que será que irá acontecer agora? muitas surpresas ainda.
respostas do capítulo anterior aqui.

10/07/2018

15. loneliness


Cinco anos depois

Todas as noites eu acendia um cigarro e me sentava na janela. Enquanto ele queimava, eu me permitia lembrar do passado. Eu me permitia sofrer e lamentar até o momento em que a
chama chegava ao filtro. Então, eu desligava meu cérebro e esquecia tudo, porque a dor era
grande demais. Eu me mantinha ocupado para que as recordações não voltassem. Assistia a
documentários, arrumava empregos sem perspectivas, ficava exausto, fazia todo o possível
para não me lembrar de nada.
Mas agora meu irmão me pedia para voltar ao lugar do qual passei os últimos cinco anos
fugindo. Quando cheguei na estação de trem de True Falls, eu me sentei e considerei por um
instante se deveria comprar uma passagem só de ida para Iowa.
— Acabou de chegar ou está de partida? — perguntou uma mulher a dois assentos de
mim. Voltei-me na direção dela, ligeiramente atraído por seus olhos verdes intensos. Ela me
deu um sorriso e mordeu a unha do polegar.
— Não sei ainda — respondi. — E você?
— Acabei de chegar. Para ficar, acho. — quanto mais ela sorria, mais triste parecia. Eu não
sabia que sorrir podia ser algo tão doloroso. — Só estou tentando fugir um pouco da minha
vida.
Aquilo era algo que eu entendia.
Eu me recostei no banco, tentando não me lembrar da vida que tinha deixado para trás há
alguns anos.
— Até reservei um quarto em um hotel para passar a noite. — ela mordeu o lábio inferior.
— Assim tenho mais algumas horas para esquecer tudo, sabe? Antes de voltar ao mundo real.
Assenti com a cabeça. Ela se arrastou pelo banco, vindo se sentar ao meu lado, e sua perna
roçou a minha.
— Você não se lembra de mim, não é?
Inclinei ligeiramente a cabeça em sua direção, e ela me deu aquele sorriso triste de novo.
Passou os dedos pelos cabelos longos.
— Eu deveria? — perguntei.
— Provavelmente não. Meu nome é Sadie. — ela piscou, talvez imaginando que seu nome
significaria algo para mim. Então deu um sorriso torto. — Deixa pra lá. Você parece ser do
tipo que quer esquecer tudo por um tempo. Se quiser, pode vir comigo ao hotel.
Eu deveria ter dito que não. Deveria ter ignorado o convite. Mas ela parecia tão triste... Era
como se sua alma ferida queimasse como a minha. Então, peguei a mochila, joguei-a por cima do ombro e segui Sadie rumo à terra do esquecimento.

***

— Estudamos nas mesmas escolas durante anos — explicou Sadie enquanto estávamos
deitados na cama daquele quarto de merda.
Eu já tinha estado ali antes, há muitos anos, desmaiado em uma banheira imunda. Aquele
lugar não me trazia as melhores recordações, mas, desde que cheguei ao Wisconsin, percebi
que todas as lembranças seriam uma droga.
Seus lábios tingidos de vinho se moveram.
— No último ano, você copiou todas as minhas provas de matemática. Você só se formou
graças a mim. — ela se apoiou nos cotovelos. — Escrevi quatro das suas redações. E você sabe falar espanhol por minha causa! Sadie? Sadie Lincoln?
Não fazia a mínima ideia de quem ela era.
— Não falo espanhol.
— Bem, você poderia falar. Não se lembra mesmo de mim?
Os olhos de Sadie ficaram tristonhos, mas ela não deveria se sentir assim. Não era nada
pessoal. Eu não me lembrava de muitas coisas.
E ainda havia muito que eu queria esquecer.
— Para ser sincero, passei a maior parte do colegial fodido.
Isso não era mentira.
— Ou com aquela garota, Demi Lovato — completou ela.
Senti um aperto no peito e fechei a cara. Só de ouvir o nome de Demi eu era inundado
por recordações.
— Ela ainda mora aqui na cidade? — perguntei, tentando soar indiferente. Demi tinha
parado de deixar mensagens há meses, e eu e Nicholas nunca falávamos dela quando ele me
ligava.
Sadie assentiu.
— Ela trabalha no Hungry Harry’s Diner. Também a vi trabalhando na Sam’s Furniture.
Toca piano em alguns bares. Não sei. Está em todos os lugares. Estou surpresa por você não
saber disso. Vocês dois viviam grudados um no outro, o que era estranho, porque não tinham nada em comum.
— Tínhamos muito em comum.
Ela soltou uma risada sarcástica.
— Sério? Como uma musicista que só tirava dez e um cara drogado que só passava de ano
graças a mim e tinha uma mãe viciada em cocaína podiam ter muito em comum?
— Pare de falar como se soubesse alguma coisa sobre nós — resmunguei, irritado.
Naquela época, Demi e eu tínhamos mais em comum do que quaisquer outras pessoas no
mundo. E Sadie não sabia absolutamente nada sobre a minha mãe. Vá se foder.
Eu deveria ter ido embora. Deveria ter dito a ela para ir para o inferno e encontrar outra
pessoa para encher o saco, mas eu odiava ficar sozinho. Passei os últimos cinco anos na
solidão, com exceção do rato que de vez em quando vinha me visitar.
Sadie ficou em silêncio pelo máximo de tempo que conseguiu, o que não era muito. Ela
não sabia o quanto o silêncio trazia paz.
— E aí, é verdade que você estava na reabilitação?
Eu já estava me sentindo desconfortável com aquele falatório. Odiava conversar sobre a
reabilitação, porque uma parte de mim desejava voltar para a clínica, e a outra queria estar
em um beco fazendo duas carreiras de cocaína em cima de um latão de lixo. Fazia muito
tempo que eu tinha parado de usar drogas, mas ainda pensava nelas quase todos os dias. A
Dra. Kahn tinha dito que o retorno ao mundo real seria difícil, mas ela acreditava que eu
conseguiria passar por isso. Prometi que, se sentisse vontade de usar drogas, esticaria a
pulseira de elástico vermelho que ela me deu e a deixaria bater em minha pele, como um
lembrete de que as escolhas que fiz eram reais, assim como a dor.
No elástico estava escrito “força”, o que era estranho, porque eu tinha a sensação de não
ter nenhuma.
Ele chicoteava meu braço desde que Sadie tinha começado a falar.
— Todo mundo na cidade achava que você estava morto. Acho que foi a sua mãe que
espalhou esse boato.
— Sabe o quanto seus olhos são bonitos? — perguntei, mudando de assunto. Comecei a
beijar o pescoço de Sadie e a ouvi gemer.
— Eles só são verdes.
Ela estava errada. Eram de um tom único, verde-folha com um toque cinza.
— Há alguns anos, assisti a um documentário sobre porcelana chinesa e coreana. Seus
olhos são da cor do verniz que eles usam.
— Você assistiu a um documentário sobre porcelana chinesa? — murmurou ela com uma
risada, tentando recuperar o fôlego enquanto meus lábios se moviam por seu pescoço. Senti
seu corpo estremecer. — Você devia estar muito mal mesmo.
Eu ri, porque ela acertou em cheio.
— No Ocidente, as pessoas costumam chamar esse tom de verde-acinzentado, mas, no
Oriente, há um nome específico para essa cor, qingci.
Pressionei os lábios contra os dela, e ela retribuiu o beijo, pois esse era o motivo de
estarmos naquele quarto de hotel sujo. Estávamos ali para confundir alguns amassos com
paixão. Confundir solidão com totalidade. Era incrível o que as pessoas eram capazes de fazer para não se sentirem sozinhas.
— Você pode passar a noite aqui? — perguntou Sadie.
— Claro. — suspirei, passando a língua em sua orelha.
Eu queria passar a noite com ela porque a solidão era um saco. Queria passar a noite com
ela porque eu estava perdido na escuridão. Queria passar a noite com ela porque ela me
pediu. Queria passar a noite com ela simplesmente porque eu estava com vontade.
Ela tirou minha camisa e passou as mãos pelo meu peito.
— Nossa, você é forte!
Sadie deu uma risadinha. Porra. Será que eu realmente quero passar a noite com ela?
Sem responder, tirei sua calça e, em seguida, a minha. Deitei em cima dela, meus lábios
percorrendo seu pescoço e seu peito, passando pela barriga e detendo-se no elástico da
calcinha. Quando meu polegar começou a roçar o tecido, ela gemeu.
— Isso...
Cara, ela era meu vício naquela noite. Eu me sentia um pouco menos sozinho. Até pensei
em ligar para ela no dia seguinte, encontrá-la novamente no hotel e trepar com ela naquela
merda de cama.
Não demorei muito para tirar minha cueca boxer e ficar novamente por cima. Coloquei
um preservativo, mas, antes de penetrá-la, ela protestou.
— Não, espere! — tive um vislumbre de medo naqueles olhos qingci. Sadie
imediatamente levou as mãos à boca, e lágrimas brotaram em seus olhos. — Não posso. Não
posso.
Parei imediatamente. A culpa me atingiu como um soco no estômago. Ela não queria fazer
sexo comigo.
— Cara, desculpa. Eu pensei...
— Tenho namorado — disse ela. — Tenho namorado.
Espera aí.
— O quê?
— Tenho namorado.
Namorado?
Que merda.
Ela era uma mentirosa.
Ela era falsa.
Ela tinha namorado.
Eu me afastei e me sentei na beirada da cama. Minhas mãos agarraram a lateral do
colchão, e eu a ouvi se mover, o lençol farfalhando.
Ela falou suavemente:
— Desculpa. Achei que conseguiria fazer isso. Achei que conseguiria seguir adiante, mas
não consigo. Pensei que seria fácil, sabe? Deixar rolar... Achei que conseguiria esquecê-lo por um tempo.
Sem me voltar para ela, dei de ombros.
— Sem problemas. — levantei-me e segui na direção do banheiro. — Volto logo.
Fechei a porta e passei as mãos no rosto. Tirei o preservativo e o joguei na lata do lixo
antes de me apoiar na porta e começar a me masturbar.
Que patético.
Eu era patético.
Pensei na cocaína. O barato que ela proporcionava costumava liberar uma onda de calor
em meu corpo. Uma sensação de completa paz e felicidade. Acelerei os movimentos,
lembrando-me de como ela me livrava de todos os problemas, medos e conflitos. Eu me
sentia como se estivesse no topo do mundo, invencível. Euforia. Júbilo. Amor. Euforia. Júbilo.
Amor. Euforia. Júbilo. Amor.
Ódio. Ódio. Ódio.
Respirei fundo.
Gozei.
Senti um imenso vazio.
Abri a torneira da pia, lavei as mãos e me encarei no espelho, olhando profundamente os
olhos esverdeados e sem importância. Os olhos tristes. Olhos ofuscados por
uma leve depressão.
Afastei a tristeza, sequei as mãos e voltei para o quarto.
Sadie estava se vestindo, enxugando as lágrimas.
— Está indo embora? — perguntei.
Ela assentiu.
— Você... — pigarreei. — Você pode passar a noite aqui — falei. — Não sou um babaca que vai te expulsar às três da manhã. Além disso, o quarto é seu. Eu é que tenho que ir
embora.
— Eu disse ao meu namorado que iria para casa quando chegasse à cidade.
Ela deu um sorriso forçado. Apenas de sutiã e calcinha, Sadie foi até a sacada e abriu a
porta, mas não foi até lá fora. Estava caindo um dilúvio, pingos de chuva batiam na grade de
metal. A chuva sempre me fazia lembrar de Demi e do quanto ela odiava tempestades à
noite. Eu me perguntei como ela estaria naquele momento. Como estaria lidando com o som
da água batendo em sua janela.
— Não consigo dormir, Joe. Pode vir para cá?
A voz de Demi parecia uma gravação em minha mente, tocando várias e várias vezes, o
som percorrendo meu cérebro, até que eu o afastei.
Sadie passou os dedos pelo cabelo longo. Seu sorriso forçado logo se transformou em uma
careta.
— Ele provavelmente ainda não está em casa. Eu odiava dormir sozinha quando era
solteira. E agora que tenho um namorado, ainda me sinto sozinha.
— Eu deveria sentir pena de você, mesmo que esteja traindo seu namorado? — perguntei.
— Ele não me ama.
— Mas com certeza você o ama.
— Você não entende — disse ela na defensiva. — Ele é controlador. Afastou todo mundo
que se preocupava comigo. Eu não usava drogas, assim como você agora. Nunca tinha usado
drogas até conhecê-lo. Ele me prendeu em uma armadilha, e, agora, quando chegar em casa,
vai deitar na cama e não vai sequer me tocar.
Alguns pensamentos surgiram em minha cabeça, mas eu sabia que eram uma má ideia.
Fique comigo esta noite.
Fique comigo pela manhã.
Fique comigo.
A solidão era a voz que ecoava bem lá no fundo, que nos forçava a tomar decisões
equivocadas quando o coração estava dilacerado.
— É estranha a sensação? De voltar? — perguntou Sadie, mudando de assunto.
Jogada inteligente. Ela girou o corpo lentamente, e nos encaramos de novo. Suas
bochechas coraram, e juro que senti um aperto no peito com a simples ideia de deixá-la ali
sozinha.
— Um pouco.
— Você já viu Nicholas?
— Você conhece meu irmão?
— Ele toca nos bares da cidade. Ele é muito bom também. — eu não sabia que ele estava
tocando novamente. Sadie arqueou a sobrancelha, curiosa. — Vocês dois são próximos?
— Estive em Iowa por cinco anos, e ele ficou aqui, no Wisconsin.
Ela assentiu.
Pigarreei.
— Sim, somos próximos.
— Melhores amigos?
— Só amigos.
— Estou realmente chocada por saber que sua amizade com Demi não durou. Achei que
um dia ela teria um filho seu, sei lá.
Houve uma época em que eu também achei isso.
Pare de falar da Demi. Pare de pensar na Demi.
Se eu ficasse com Sadie essa noite, talvez Demi não entrasse em minha mente. Se eu
dormisse com Sadie em meus braços, talvez eu parasse de pensar que estava de volta à cidade da garota que amei. Eu me aproximei de Sadie e acariciei seu queixo.
— Olha, você pode...
— Eu não devo. — ela suspirou, me cortando. Sadie era estranha. Ela desviou os olhos dos
meus, baixando-os. — Ele nunca me traiu. Ele é... Ele me ama.
Sua súbita confissão fez minha cabeça girar.
Ela era uma mentirosa.
Ela era falsa.
Ela vai embora.
— Fique — falei, soando mais desesperado do que pretendia. — Eu durmo no sofá.
Não era exatamente um sofá, parecia um futon que tinha mais manchas do que
estofamento. Para ser sincero, eu provavelmente estaria mais confortável no chão sujo
acarpetado. Ou poderia ligar para Nicholas e dormir na casa dele.
Mas eu não estava pronto para isso.
Eu sabia que, quando encontrasse alguém do meu passado, alguém de quem eu
realmente me lembrava, eu estaria de volta ao velho mundo. O mundo de onde fugi. O
mundo que quase me matou. Eu não estava pronto para isso. Como alguém poderia estar
pronto para encarar seu passado e fingir que toda a mágoa e toda a dor tinham ido embora?
Sadie se vestiu e me olhou por cima do ombro. Seus olhos estavam cheios de tristeza e
compaixão.
— Pode fechar?
Dei três passos na direção dela e fechei o zíper do vestido que abraçava cada curva de seu
corpo. Minhas mãos pousaram em sua cintura, e ela se voltou para mim.
— Pode chamar um táxi para mim?
Sim, eu podia, e foi o que eu fiz. Ao ir embora, Sadie me agradeceu e disse que eu poderia
passar a noite no hotel, pois já tinha pagado a diária. Aceitei a oferta, mas achei estranho o agradecimento. Não fiz nada por ela. Na verdade, eu quase a transformei em uma pessoa
infiel.
Não.
Uma pessoa que trai alguém provavelmente sente algum tipo de culpa na primeira vez.
Ela só parecia vazia.
Eu esperava nunca mais vê-la, porque estar perto de outras pessoas vazias drenava minhas
energias.
Depois que Sadie saiu, fiquei vagando pelo quarto durante uma hora. Havia outros como
eu lá fora? Que se sentiam tão sozinhos que preferiam passar a noite com pessoas que não
tinham qualquer importância, só para poder olhar nos olhos de alguém?
Eu odiava ficar sozinho, porque isso me lembrava de todas as coisas que eu odiava em
mim mesmo. Eu me lembrava de todos os erros do passado que me fizeram chegar ao ponto
de apenas existir, em vez de viver. Se eu realmente vivesse minha vida, certamente ia acabar
machucando alguém próximo de mim, e eu não podia mais fazer esse tipo de coisa. Então,
era melhor ficar sozinho.
No passado, eu nunca me sentia sozinho, pois tinha as drogas, minhas amigas destrutivas
e silenciosas. Nunca me sentia sozinho quando tinha meu maior vício.
Demi...
Merda.
Minha mente estava me deixando louco, as palmas das minhas mãos coçavam. Tentei
assistir à televisão, mas só estava passando porcaria. Tentei desenhar um pouco, mas a caneta do quarto não tinha tinta. Tentei desligar meu cérebro, mas continuava pensando na melhor coisa que eu havia tido na vida.
Quando eu a veria?
Será que eu a veria?
Claro. A irmã dela vai se casar com o meu irmão.
Eu queria vê-la?
Não.
Eu não queria.
Cara, eu queria.
Queria abraçá-la e, ao mesmo tempo, nunca mais tocar nela de novo.
Queria beijá-la e, ao mesmo tempo, nunca mais me lembrar de suas curvas.
Queria...
Cale a boca, cérebro.
Peguei meu celular e pressionei o dois. A voz tinha mudado, mas a saudação era a mesma.
A gravação me agradecia por ligar para o número de apoio para ex-usuários de drogas e
álcool. Ela me deu boas-vindas e se colocou à disposição para me ouvir falar de meus conflitos e necessidades em um ambiente estritamente confidencial.
Desliguei, como sempre.
Porque pessoas como eu, com um passado como o meu, não mereciam ajuda, e sim
solidão.
Meus passos me levaram à varanda, e eu acendi um cigarro, apoiando-o em um pequeno
ponto seco no chão. Fiquei escutando a chuva cair sobre True Falls, e meus olhos se fecharam.
Respirei fundo e me permiti sofrer durante os poucos minutos em que o cigarro queimava.
Pensei em Demi. Pensei em minha mãe. Pensei nas drogas.
Então, como sempre, pensei no filho que eu poderia ter tido se não fossem os demônios
dentro de mim.
Às vezes, o cigarro queimava por oito minutos. Outras vezes, dez.
Mas o que nunca mudava, não importava quanto tempo ele durasse, era o fato de que meu
coração, já devastado, sempre se dilacerava um pouco mais.

se passaram 5 anos e o Joseph achou que irá se dar bem com a Sadie hahahaha.
o que posso dizer é que o encontro da Demi e do Joseph já está próximo.
 qual será a reação dela sobre o reencontro? deixem seus palpites.
o que acharam do capítulo? eu espero muito que vocês tenham gostado amores.
respostas do capítulo anterior aqui.